21/08/2017

O fenómeno da "espiral do silêncio"


O termo "espiral do silêncio" foi cunhado pela alemã Elisabeth Noelle-Neumann para explicar a razão pela qual as pessoas tendem a permanecer silenciosas quando têm a sensação, por vezes falsa, de que as suas opiniões e mundividências estão em minoria. O modelo do conceito de "espiral do silêncio" baseia-se em três características:

1. As pessoas têm uma percepção que lhes permite saber qual a tendência da opinião pública, mesmo sem ter acesso a sondagens;
2. As pessoas têm medo de ser isoladas socialmente ou ostracizadas, e sabem qual o tipo de comportamento que poderá contribuir para esse isolamento social;
3. As pessoas apresentam receio em expressar as suas opiniões minoritárias, por medo de sofrer isolamento da sociedade ou do círculo social próximo.

Quanto mais uma pessoa acredita que a sua opinião está mais próxima da opinião pública maioritária, maior probabilidade existe que essa pessoa expresse a sua opinião em público. E se a opinião pública entretanto mudar, essa pessoa passará a reconhecer que a sua opinião já não coincide com a opinião da maioria, e terá menos vontade de a expressar publicamente. À medida que a distância entre a opinião da pessoa e a opinião pública aumenta, também aumenta a probabilidade de essa pessoa se calar publicamente.

Os meios de comunicação social são um factor essencial no estabelecimento da "espiral do silêncio", na medida em que formatam a opinião pública. Perante uma opinião pública formatada, as pessoas que não concordam com a mundividência emanada da comunicação social, tendem a entrar em "espiral do silêncio" – muitas vezes constituindo uma "maioria silenciosa".

Adaptado de «Sofos: Expressões Filosóficas».

17/08/2017

A propósito de António Sardinha


Nesse ano de 1919, em Janeiro, é proclamada a Monarquia do Porto que, em 13 de Fevereiro, foi vencida. António Sardinha, que colaborara nesse acontecimento, vê-se obrigado a abandonar o País e a refugiar-se em Espanha.
O mal que a Espanha fez a António Sardinha é coisa que ainda não foi suficientemente apreciada. [pág. 17]

Quando António Sardinha regressou a Portugal, a primeira vez que o encontrei, na Rua do Carmo, fiz menção de me dirigir a ele. Ergueu os braços, gritando-me: «Não me fale! Não me fale!». [pág. 19]

Algumas vezes resmunguei. Mas porque considerei tudo mera borbulhagem de varíola politiqueira de campanário, puro acidente de desencontro sanável – quando Sardinha morreu, em Janeiro de 1925, escrevi na Acção Realista artigo de homenagem que, pela sinceridade, pelo equilíbrio dos juízos, penso ainda hoje que é um dos melhores, senão o melhor dos estudos sintéticos até agora consagrados à obra do autor do Ao princípio era o Verbo e do Tronco reverdecido.
Sempre que, depois dessa data, me tenho referido a Sardinha, é sempre com respeito e justiça, – prova de que me estava no propósito varrer do meu espírito, a recordação penosa das injúrias que da sua pena recebi. [pág. 21]

Não. No período que vem desde 1914 a 1925, durante a vida de Sardinha, e no que se lhe segue, desde 1925 até à hora em que escrevo, não houve apenas o Integralismo Lusitano e os seus chefes dirigentes.
O silêncio sistemático que se faz à volta do mais que houve, não o arranca, não o apaga da História da Contra-Revolução portuguesa e da Filosofia política.
Pode induzir em erros as gerações fúteis e superficiais que se têm sucedido; pode alimentar a má vontade dos falhos, e as ambições dos videirinhos ou gafados.
Mas os livros, as revistas, os jornais, toda essa soma de fontes indispensáveis ao historiador escrupuloso e sério, que até agora tem vivido afogada, abafada, ocultada, por força da ignorância e da má-fé, está nas bibliotecas públicas e particulares, e nem a ignorância nem a má-fé a farão desaparecer da vida.
E quando, amanhã, a crítica impessoal, responsável e honesta, nas suas intenções e nos seus processos, chamar a si este período da história portuguesa, verificará a existência de acontecimentos, trabalhos e pessoas que até agora, a crítica «mentirosa, torpe e grosseiramente injusta» (Bettencourt e Galvão dixit) tem ocultado, abafado e afogado!
Não! Não houve só o Integralismo e os seus chefes dirigentes! [págs. 28-29]

Que foi, afinal, António Sardinha?
Nada do que os seus panegiristas ineptos proclamam; foi o que a sua obra define.
Que é a sua obra?
Historiador? Erudito? Sardinha nunca foi historiador e erudito. Desconhecia as fontes directas, originárias. A sua leitura era larga, mas de segunda mão. [págs. 33-34]

Isso a que se chama, no meio de muito ruído de tambores e pratos de metal, a obra histórica de António Sardinha, não passa de obra de vulgarização polémica em que o escritor substituiu o sinal mais pelo sinal menos, ou vice-versa, não em consequência de estudos pessoais, ou pesquisas originais, mas apenas em obediência a propósitos que, de forma alguma, se podem chamar científicos. [pág.34]

Não há talvez, em Portugal, quem fale mais em Fustel de Coulanges, do que Sardinha; e ninguém anda mais afastado do que ele, dos métodos do insigne historiador das Instituições políticas da antiga França.
Fustel de Coulanges é escravo do documento, e ergueu o seu edifício sobre documentos; António Sardinha manuseou livros de opiniões, folheou autores; não estudou documentos, em Arquivos, nem sequer consultou Cartulários publicados! Não fez História: trabalhou sobre história feita. [págs. 34-35]

É aí que está a explicação das contradições de António Sardinha, como aquela famosa de, uma vez, e com toda a razão, chamar «usurpação sinistra dos Filipes» (O Valor da Raça, pág. 165) ao período da nossa sujeição a Castela, para, depois, pretender convencer-nos de que «se Filipe II ascende ao Trono de Afonso Henriques, ascende como sucessor do Mestre de Avis, invocando títulos jurídicos, em que a força das armas não intervém senão como argumento decisivo, sim, mas a empregar em último recurso» (Aliança Peninsular, pág. IV). [pág.35]

Um exemplo muito significativo ilustra superabundantemente a minha crítica.
Querendo provar-nos que o Absolutismo triunfante no século XVIII não era «a vontade caprichosa do Soberano», em que se funda António Sardinha? Na afirmação do autor de certo Tratado de Direito Constitucional! E autor francês!
O argumento é inoperante – porque aos dizeres de uns autores, opõem-se os dizeres de outros. Mas não é inoperante o texto da Rainha de Portugal, D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V, quando definiu a função régia: «Os Reis são os Executores e os mais ilustres Vassalos das Leis do Reino». Pois não teria mais autoridade, para definir o Absolutismo Régio, a Rainha absoluta que o exercia? [pág. 36]

Porque não fatigou os olhos no estudo dos documentos, tem a audácia de afirmar entonadamente que D. Afonso I e o seu filho D. Sancho se intitularam «reis dos Portugueses», como se não tivessem usado outros títulos que provam que a significação dada por Sardinha àquela expressão é manifestamente errada. (...)
Para Sardinha, em Castela, a terra pertencia ao Rei; em Portugal, não. Daí os Reis serem, em Castela, «de Castela», e em Portugal, «dos Portugueses»!
Mas os documentos desmentem-no. [pág. 37]

O livro em que isto se encontra é muito gabado – por quem não reflecte no que lê, e é propenso a deixar-se ir na corrente doce do ribeiro. Refiro-me à Aliança Peninsular em que Sardinha desenvolve e glosa a tese esboçada por Moniz Barreto, e vincada por Oliveira Martins em artigos de jornal.
A tese é má, por perigosa, e partir de premissas falsas. Sardinha mói e remói, pisa e repisa os argumentos, num tecido pastosos de sofismas, erros, digressões, juízos tendenciosos e quimeras absurdas.
Hipólito Raposo, um dos seus amigos íntimos, confessa que o autor, pouco tempo depois do aparecimento da Aliança Peninsular já «se sentia desgostoso e magoado com pessoas e instituições de além-fronteiras por certas razões e circunstâncias» que não deseja revelar.
Pois é pena que o não revele, porque essas razões poderiam em muito evitar contágios indesejáveis.
E Hipólito Raposo continua: «Depois da morte dele, ao meu conhecimento vieram, e por mim passaram alguns dados dos quais seguramente deduzi que não eram compreendidos e aceites em toda a pureza da sua sinceridade, em todo o escrúpulo do seu patriotismo, os esforços do nosso querido companheiro» (Vanguarda, de Coimbra, 17 de Março de 1928).
Esse livro não afecta o carácter de Sardinha ou o seu amor à Pátria; mas afecta a sua inteligência e a sua cultura, e serve – ai de nós! – desígnios hostis ao interesse nacional.
Importa pouco que esses desígnios ultrapassem o objectivo do escritor, ou se manifestem à margem dele. Mas importa muito que utilizem o livro como seu instrumento.
Esse livro é uma triste monstruosidade. E o depoimento insuspeitíssimo do Sr. Hipólito Raposo é a sua condenação irrevogável.
A História objectiva ensina precisamente o contrário do que António Sardinha pretende convencer os seus leitores.
Só um português cego pela paixão mais doentia, ou por demência calamitosa, pode aceitar a unidade hispânica, como a concebeu Sardinha: «a unidade hispânica exige que os dois povos se mantenham livres no seu governo interno, embora ligados militar e diplomaticamente para a defesa comum, porque comum, pensando bem, é o património que a ambos pertence» (págs. 63 e 64).
Esta tese está visceralmente, substancialmente errada. Não posso evidentemente desenvolver a minha oposição a ela, porque os meus argumentos emanam dos factos, e eu não posso discutir ou comentar os factos.
Mas a inteligência do leitor esclarecido e independente facilmente suprirá o meu silêncio.
A tese vincara-a Oliveira Martins, quando dizia que «devemos outra vez aliar as nossas forças no propósito de uma defesa comum», depois de ter proclamado: «união de pensamento e acção; independência de governo» (Dispersos, II, págs. 216 e 219).
Espero que as gerações futuras, ainda não tocadas da mitomania que por aí vai, e porventura dela afastadas pelos esforços do meu espírito e doutros como eu, sepulte para sempre esse livro nefasto e essa tese demoníaca, no silêncio e no desprezo.
Que as circunstâncias de um momento possam conduzir-nos a uma cooperação ocasional, compreendo; mas transformar essa precaridade, essa momentaneidade, em perenidade e sistema, em princípio e norma de vida, só pode pretende-lo quem desconheça por completo a História de oito séculos de Portugal, ou a conheça mal, – que é ainda pior.
Tenho permanentemente diante de mim, os juízos e desejos dos altos espíritos, como Juan de Valera ou Menendez y Pelayo que valem mais, para mim, na sinceridade do seu pensamento puro, desinteressado e livre de preconceitos políticos ou respeitos e conveniências, do que todos os argumentos de António Sardinha ou de Oliveira Martins.
Entre a hostilidade, que formalmente condeno, e a tese que António Sardinha foi buscar a Oliveira Martins, de uma política militar e diplomática comum, que decididamente rejeito, há lugar para a única posição sensata que a História justifica: a da simpatia fundada na compreensão recíproca da independência plena dos nossos respectivos interesses, – o que não exclui, é óbvio, qualquer entendimento eventual que as circunstâncias aconselhem, como em 1936.
Tanto Oliveira Martins como Sardinha, seu eco, falam muito na política da Dinastia de Avis, chamando-lhe política de cooperação.
Mas isto é uma escandalosa falsificação da História, contra que protestam todos os textos!
Nunca, até ao advento do Liberalismo ou da Revolução, a política portuguesa se orientou no sentido de comunidade militar ou diplomática. Parece incrível que se diga o contrário.
Se António Sardinha tivesse sido historiador e erudito, nunca teria escrito as páginas infelizes da Aliança Peninsular, que, no seu conjunto, não passa de simples romance. [págs. 39-43]

Tinha, indiscutivelmente, apreciável cultura literária, que lhe forneceram principalmente escritores franceses, castelhanos ou brasileiros do nosso tempo. Os seus livros estão recheados com transcrições de um número limitado de autores das três literaturas, e são estes que lhe ministram, em segunda mão, os conhecimentos, informações ou sugestões de que a sua inteligência se alimenta, para o desenvolvimento das suas teses.
Já tive ocasião de provar que não conheceu S. Tomás directamente, dando por tomistas doutrinas que eram apenas de comentadores muito posteriores.
Qualquer poderá verificar, se se quiser dar a esse trabalho, que os próprios textos pontifícios às vezes citados na obra de Sardinha emanam de versões francesas e não dos originais latinos.
Ora a erudição exige que nos reportemos às fontes originárias e não aos discreteadores, por muito fiéis que sejam. Dá mais trabalho, mas são mais firmes os passos. [pág. 43]

António Sardinha não foi um pensador reflectido e meditativo; foi um pensador impressionista.
As ideias científicas que nos deixou são raras; o que ficou da sua acção, principalmente, foram emoções.
Não formulou nem resolveu problemas de Ciência ou Erudição. Foi brilhante, muitas vezes; nunca foi profundo. [pág. 44]

António Sardinha morreu cedo – para a sua família e para os seus amigos. Morreu, porém, a tempo, para o seu nome.
Há homens que só lucram em não sobreviver a certos acontecimentos. Na nossa vizinha Espanha, José António Primo de Rivera. Em Portugal, António Sardinha.
José António, porque morreu nas circunstâncias que todos conhecem e no momento que ninguém ignora, está, hoje, no Escorial, junto do Panteão dos Reis de Espanha! Onde não estão Menendez Pelayo, ou Balmes...
António Sardinha, porque morreu em 1925, anda por aí aos ombros de uma turba de medíocres ou falsários do Espírito que não o leram, nem são capazes de o ler.
Se José António fosse vivo, é muito possível que estivesse, a esta hora, no exílio, a contemplar a sua glória de fundador da Falange – se não preferisse conformar-se.
Quanto a António Sardinha...
Vimo-lo, nos últimos tempos da sua vida, acamaradar com uma chafarica de «homens livres», sabujando dois autênticos mistificadores e malfeitores da Inteligência – Raúl Proença e António Sérgio (veja-se o desgraçado artigo Almas republicanas, no livro Purgatório das Ideias, pág. 279); vimo-lo gritar às gentes emparvecidas: «Monarquia? República? Oh! A balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem!».
Ora através dos catorze volumes que constituem a sua obra, precisamente o que se vincou, proclamou, ensinou, e repetiu, foi que Monarquia e República eram realidades acima de tudo expressivas...
Para onde o teriam levado os acontecimentos, se ainda fosse vivo?
As tendências manifestadas nos últimos meses da sua vida induzem-me a crer que, tendo abandonado a doutrina do primado do político para lhe substituir a do primado do social, estaria hoje integrado inteiramente na orientação que inspira a vida política portuguesa, a qual aliás, pressupõe, indiscutivelmente, o primado do político, sem o que não existiria.
E é isso que proclamam os que fazem variações cómicas nos clarins e cornetins, na pista da Inquietação e da Presença. [págs. 45-46]

Alfredo Pimenta in «A propósito de António Sardinha», 1944.

15/08/2017

Assim nasceu o Mosteiro da Batalha


Na manhã de 14 de Agosto de 1385, momentos antes da Batalha de Aljubarrota, o príncipe D. João, Mestre de Avis, fez um voto solene à Santíssima Virgem, no qual se comprometia a erigir um mosteiro em Sua honra, em caso de vitória portuguesa. E assim aconteceu. Na véspera da Assunção de Maria, o pequeno exército português (de 7.000 homens) conseguiu um triunfo retumbante sobre o poderoso exército castelhano (de 40.000 homens). O príncipe D. João cumpriu a sua promessa, e terminada a guerra, mandou edificar o Mosteiro de Santa Maria da Vitória ou Mosteiro da Batalha.

13/08/2017

O rapto dos Pastorinhos de Fátima


À medida que se aproximava o 13 de Agosto de 1917, a notícia das aparições de Fátima espalhou-se por todo o país. A imprensa liberal-maçónica [e republicana] tomou um interesse especial no assunto, não descuidando qualquer oportunidade para o denunciar e espalhar falsidades sobre os três pastorinhos. Quando se tornou evidente que estas tácticas não conseguiam afastar as multidões de peregrinos, cuja fé os levava a viajar de longe para estarem presentes quando Nossa Senhora aparecesse, a imprensa declarou, à maneira anticlerical do costume, que o clero andava a enganar o povo para lhe extrair dinheiro. E apelava com vigor às autoridades para que actuassem.

A autoridade local de Fátima era Artur de Oliveira Santos, Administrador do Concelho de Vila Nova de Ourém e anticlerical fanático. Também conhecido pela alcunha de "Latoeiro", era um maçon a quem o seu cargo dava um poder considerável, e governava o seu Concelho de forma tirânica, impondo restrições às igrejas e às cerimónias religiosas ao seu mínimo capricho. O Latoeiro decidiu pôr um fim à piedade popular resultante das aparições de Fátima, usando os meios que entendesse serem necessários.

A 10 de Agosto, os pais dos três videntes de Fátima, Manuel Marto e António dos Santos, receberam ordem de se apresentarem no dia seguinte, com os seus filhos, em Vila Nova de Ourém. Era um percurso de quinze quilómetros, sem outro meio de transporte que não fosse ir de burro, ou então ir a pé. Manuel Marto recusou-se a obrigar os seus dois filhos pequenos a fazer essa viagem ou a aparecerem em tribunal, e decidiu ir sozinho. Por seu lado, António dos Santos queria que a sua filha Lúcia se explicasse por si própria. O Latoeiro ficou furioso com a ausência do Francisco e da Jacinta.

Sobre a sua experiência com o Latoeiro, Lúcia escreveu:
"Na sede da Administração, fui interrogada pelo Administrador, na presença do meu Pai, do meu Tio e de vários outros senhores que me eram estranhos. O Administrador estava decidido a forçar-me a revelar o Segredo e a prometer-lhe que não tornava a ir à Cova da Iria. Para alcançar este fim, não se poupou a fazer promessas, nem sequer ameaças. Vendo que não conseguia nada, mandou-me embora, mas protestou que havia de conseguir o que queria, mesmo que para isso tivesse de tirar-me a vida."

A 12 de Agosto, começaram a chegar multidões à Cova da Iria, preparando-se para a aparição esperada para o dia seguinte. Na manhã de 13 de Agosto, o Administrador chegou à casa dos Martos para ver as crianças. Convenceu os pais de que desejava "ver o milagre" com eles, e primeiro foram juntos falar com o pároco da freguesia. Depois de responder a umas perguntas, o Administrador fez os pastorinhos entrar para o seu carro. Este começou primeiro a andar em direcção à Cova da Iria, mas de repente deu meia-volta e seguiu para outra direcção. O Administrador tentou serenar os pastorinhos, dizendo-lhes que iam ver o pároco de Ourém. Para que os peregrinos a caminho da Cova da Iria não vissem os pastorinhos, cobriu-os com um cobertor. Finalmente chegou em triunfo a sua casa; acreditava que, se eles fossem impedidos de ir à Cova, não aconteceria nada de sobrenatural e o assunto das aparições chegaria ao fim.

Quando chegaram à casa do Latoeiro, os pastorinhos foram fechados numa sala e disseram-lhes que não sairiam dali até revelarem o Segredo. A bondosa mulher do Latoeiro deu-lhes o almoço, deixou-os brincar com os seus filhos e fez para que não lhes faltasse nada. No dia seguinte tiveram de passar por nove interrogatórios, mas os pastorinhos, fortificados por uma graça especial, não cederam.

O Latoeiro queria saber o Segredo, custasse o que custasse, mas não conseguiu obtê-lo nem confundir os pastorinhos para que se contradissessem uns aos outros. Até chamou um médico, para poder acusá-los de alucinações e histeria. As conclusões do médico nunca foram publicadas; e este facto é de grande importância, porque se o médico concluísse que as crianças estavam alucinadas, o Administrador não hesitaria em publicar-lhe o testemunho sem mais demoras.

Em seguida, o Latoeiro mandou os pastorinhos para a cadeia, que estava cheia de outros presos. Foram então interrogados separadamente, após o que o Latoeiro ameaçou mandá-los ferver em azeite se continuassem a recusar-se a contar-lhe o Segredo de Fátima. Na presença deles, mandou que pusessem a aquecer um caldeirão de azeite, e ameaçou-os que os punha no caldeirão se não colaborassem. Os pastorinhos acreditaram na ameaça do Latoeiro. Um homem que estava na cadeia tentou convencer a Jacinta a ceder, dizendo-lhe que bastava contar o Segredo para escapar a ser morta. A Jacinta respondeu: "Antes morrer!"

O Latoeiro levou primeiro a Jacinta. O Francisco e a Lúcia acreditaram que a levava para a morte. O Latoeiro regressou e disse-lhes que a Jacinta estava morta. Exigiu-lhes de novo que lhe revelassem o Segredo, ou também seriam fritos em azeite. O Francisco foi depois levado, aparentemente para a sua morte. Em seguida, o Latoeiro ameaçou a Lúcia com o mesmo destino se não colaborasse; mas a Lúcia manteve-se fiel, embora acreditasse que os seus primos tinham sido mortos. Porém, tal não sucedera; era só uma ameaça vã. Mas nem com esta derradeira ameaça o Latoeiro conseguiu obter o Segredo. Na manhã seguinte (15 de Agosto), a seguir a um interrogatório final, deixou os pastorinhos regressar a Fátima, sem ter conseguido nada deles.

Fonte: «A Associação de Fátima».

12/08/2017

O activismo ou heresia da acção


"Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem" (Salmo 127)

Já dissemos em público documento, que devem ser chamados a melhores sentimentos quantos presumam que se possa salvar o mundo por meio daquela que foi justamente designada como a heresia da acção: daquela acção que não tem os seus fundamentos nos auxílios da Graça, e não se serve constantemente dos meios necessários à obtenção da santidade, que Cristo nos proporciona.

Papa Pio XII in «Menti Nostrae», 1950.

06/08/2017

Os falsos princípios do Direito moderno


É uma consequência do liberalismo exprimida por Leão XIII nestes termos: "É incalculável o número de almas que se perdem por causa das condições criadas aos povos pelos princípios do direito moderno". Examinai, por exemplo, o mal produzido pela liberdade de imprensa. Quantas almas corrompidas pela leitura dos maus jornais, as produções imorais e ímpias que abundam em todos os países. Quantas almas estão perdidas para sempre por causa desta protecção conferida de direito a todas estas edições literárias, científicas e outras. Quantas almas estão condenadas neste momento, que não o seriam, se esta maldita liberdade de imprensa não existisse. O mesmo acontece com a liberdade de ensino. O que permite aos fautores da desordem de ensinar as suas doutrinas e corromper os espíritos, senão esta liberdade absoluta que lhes foi benevolamente outorgada?

Pe. Philippe C.SS.R. in «Catecismo dos Direitos Divinos na Ordem Social», 1926.

02/08/2017

Mons. Fellay: Vaticano, Maçonaria e Nova Ordem Mundial


Tradução e transcrição das palavras de Mons. Bernard Fellay pronunciadas na entrevista, em 1999:

"Não é possível demonstrá-lo directamente, mas eu acredito que estas acções, estes comportamentos, pertencem a um plano global, um plano que foi preparado muito cedo, pelo menos desde o início do século XX, possivelmente até um pouco mais cedo, e que consiste no estabelecimento de um governo mundial com uma religião mundial. E todas essas acções servem de preparação para esta super-religião. O que, na verdade, é absolutamente incompatível com a Religião Católica e com a sua Tradição."

"A este ponto, sou obrigado a discernir a mão da Maçonaria e do seu trabalho no interior da Igreja. É particularmente significativo notar que, em 1992, um maçon de grau elevado, pôde constatar que havia quatro Lojas em actividade dentro do próprio Vaticano, a praticar o Rito Escocês, e que estas quatro Lojas são especialmente dedicadas ao Alto Clero do Vaticano. Assim, a Irmandade secreta está a trabalhar e a destruir, não apenas de fora, mas também desde o interior da própria Igreja, desde o seu seio."

29/07/2017

Causas da ingratidão


Se não me engano, três causas há da ingratidão dos homens: ou inveja, que, tomando por injúria os benefícios que se fazem a outros, não olha os que a ela se conferem; ou soberba, que cuida merecer mais do que lhe dão, e não sofre que alguém lhe seja preferido; ou cobiça, cujo fogo se não apaga com as mercês de Deus, antes se acende mais e, cobiçando o que está por ganhar, não se lembra do ganhado. Para esta não há serviço que não seja desserviço, nem liberalidade que não seja escasseza.
Estas três pestes da alma procedem da falta do conhecimento do verdadeiro bem e da perversidade de falsas opiniões, e de ser firme e mais dura nos homens a memória das ofensas que a dos benefícios, dos quais se perdem muitos por culpa de quem os dá ou de quem os recebe: aquele porque os assoalha e encarece, e este porque os não publica e deles se esquece. Mas a verdade é que entre todos os animais não há outro mais desagradecido que o homem.

D. Fr. Amador Arrais in «Diálogos», 1589.

27/07/2017

As cruzes dos nossos mortos


Quando se tem vivido uma vida já longa, e, sobre longa, intensa, de trabalhos, de fadigas, de inquietações, até de sonhos, o caminho que percorremos fica ladeado de numerosas cruzes – as cruzes dos nossos mortos. E se essa vida foi sobretudo colaboração íntima, soma de esforços comuns, inteiro dom das qualidades nobres da alma, eles não ficam para trás: continuam caminhando a nosso lado, graves e doces como entes tutelares, purificados pelo sacrifício da vida, despidos da jaça da terra, sublimados na serenidade augusta da morte. Na verdade, há mortos que não morrem...

António de Oliveira Salazar in «Discursos e Notas Políticas».

25/07/2017

25 de Julho de 1139: Batalha de Ourique


A 25 de Julho na festa de S. Tiago Apóstolo, no undécimo ano do seu reinado, o mesmo rei D. Afonso travou uma grande batalha com o rei dos Sarracenos, de nome Esmar, num lugar que se chama Ourique. Efectivamente aquele rei dos Sarracenos, conhecendo a coragem e a audácia do rei D. Afonso, e vendo que ele frequentemente entrava na terra dos Sarracenos fazendo grandes depredações e vexava grandemente os seus domínios, quis; se fazê-lo pudesse, travar batalha com ele e encontrá-lo incauto e despercebido em qualquer parte. Por isso uma vez, quando o rei D. Afonso com o seu exército entrava por terra dos Sarracenos e estava no coração das suas terras, o rei sarraceno Esmar, tendo congregado grande número de Mouros de além-mar, que trouxera consigo e daqueles que moravam aquém-mar, no termo de Sevilha, de Badajoz, de Elvas, de Évora, de Beja e de todos os castelos até Santarém, veio ao encontro dele para o atacar, confiando no seu valor e no grande número do seu exército, pois mais numerosos era ainda pela presença aí das mulheres que combatiam à laia de amazonas, como depois se provou por aquelas que no fim se encontraram mortas. Como o rei D. Afonso estivesse com alguns dos seus acampado num promontório foi cercado e bloqueado de todos os lados pelos Sarracenos de manhã até à noite. Como estes quisessem atacar e invadir o acampamento dos Cristãos, alguns soldados escolhidos destes investiram com eles (Sarracenos), combatendo valorosamente, expulsaram-nos do acampamento, fizeram neles grande carnificina e separaram-nos. Como o rei Esmar visse isto, isto é, o valor dos Cristãos, e porque estes estavam preparados mais para vencer ou morrer do que para fugir, ele próprio se pôs em fuga e todos os que estavam com ele, e toda aquela multidão de infiéis foi aniquilada e dispersa quer pela matança quer pela fuga. Também o rei deles fugiu vencido, tendo sido preso ali um seu sobrinho e neto do rei Ali, de nome Omar Atagor.
Com muitos homens mortos também da sua parte, D. Afonso, com a ajuda da graça de Deus, alcançou um grande triunfo dos seus inimigos, e, desde aquela ocasião, a força e a audácia dos Sarracenos enfraqueceu muitíssimo.

Fonte: «Annales Portucalenses Veteres».


Relembro ainda: Juramento de Ourique.

23/07/2017

19/07/2017

Mais livros recomendados


Tenho o prazer de anunciar aos leitores, que acrescentei na coluna da esquerda do blogue mais quatro obras de leitura. São elas:

Cartas de um Português aos seus Concidadãos de José Acúrsio das Neves.
Defesa de Portugal do Padre Alvito Buela Pereira de Miranda.
O Mastigóforo de Frei Fortunato de São Boaventura.
Refutação dos Princípios Metafísicos e Morais dos Pedreiros Livres Iluminados do Padre José Agostinho de Macedo.

Estas obras são de grande valor, indispensáveis a qualquer patriota e tradicionalista autêntico. Os seus autores, não foram meros escritores de realidades passadas, foram sim testemunhos dos avanços liberais contra os quais lutaram e de quem foram vítimas. Eles, melhor do que ninguém, conheceram e combateram a infiltração maçónico-liberal, dando-nos assim todas as munições necessárias contras os erros modernos, incluindo os que hoje se fazem passar por tradicionalistas. Por isso, aproveitem.

16/07/2017

Liberdade


"Porque o homem livre é aquele a quem tudo acontece como ele deseja", diz-me um louco, "quero também que tudo me aconteça como me agrada". Ah, meu amigo! A loucura e a liberdade não se encontram nunca juntas. A liberdade é uma coisa não somente muito bela, mas muito racional, e não há nada mais absurdo e menos razoável que desejar temerariamente, e querer que as coisas aconteçam como nós as havíamos pensado. Quando tenho de escrever o nome de Díon, é preciso que o escreva não como quero, mas como é, sem lhe mudar uma única letra. Passa-se o mesmo em todas as artes e em todas as ciências! E tu... queres que na liberdade reine o capricho e a fantasia! Não, meu amigo: a liberdade consiste em querer que as coisas aconteçam não como te agrada, mas como elas na verdade são.

Epicteto, filósofo grego (55 – 135 d.C.)

15/07/2017

Um rebanho... de ovelhas negras


No Ocidente, sem censura, as correntes de pensamento e ideias politicamente correctas são cuidadosamente separadas daquelas que não o são; nada é proibido, mas o que não é politicamente correcto dificilmente encontrará forma de se expressar nos jornais, livros ou nas faculdades. Por lei os vossos investigadores são livres, mas na realidade estão condicionados pelo que está na moda. Não há uma violência aberta como no Leste, contudo, uma selecção ditada pelo que é politicamente correcto e a necessidade de corresponder a critérios de massa impede frequentemente as pessoas intelectualmente livres de darem a sua contribuição à vida pública. Há uma tendência perigosa para formar um rebanho...

Aleksandr Solzhenitsyn in «O Declínio da Coragem», 1978.

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10/07/2017

A virtude do Patriotismo


Mas os nossos primeiros antepassados são pai e mãe. Não é pois fora de propósito dizer que o patriotismo começa pela reverência dos pais, esses elos vivos, esses nós entre dois mundos. A etimologia nem sempre é argumento; mas aqui, neste problema que hoje nos ocupa, a etimologia vale por definição. Pátria deriva de pai. Patriotismo deriva de uma lei natural que foi elevada à dignidade de mandamento divino: honrar pai e mãe [e outros legítimos superiores]. Patriotismo é pois a virtude da longa continuação e da grande fidelidade.

(...)

Sendo o patriotismo uma virtude moral anexa da justiça e inscrita na esfera do Quarto Mandamento, é óbvio, para os católicos, que não pode haver vida cristã perfeita onde faltar essa forma de piedade. Daí se segue que um católico não pode desinteressar-se do seu país, da sua história e dos seus destinos, sem trair um preceito.

Gustavo Corção, adaptado de «Patriotismo e Nacionalismo».

07/07/2017

A falácia do envenenamento do poço


Na sequência da falácia do espantalho parece útil apresentar outras; quem sabe uma pequena colecção delas. Estas falácias são muito usadas, mas pouco conhecidas como tal.

A "falácia do envenenamento do poço" é o errado recurso retórico que consiste na comunicação adversa (ou condicionante) a respeito de pessoa-alvo (declarada ou encoberta), de forma a descredibilizar ou ridicularizar a(s) intervenção(ões) que esta pessoa-alvo venha a fazer. Assim, por meio de falácias, e perante o público, coloca-se a pessoa-alvo limitada na sua apresentação, ou mesmo impossibilitada de intervir. É uma variante do argumento ad hominem.

Esquema:
– Pessoa A comunica ao público mentiras ou verdades prejudiciais a Pessoa B (ou a pessoa incógnita).
– Pessoa B ao falar ao público é identificada como a pessoa incógnita, ou mesmo como a Pessoa B.
– Pessoa B fica vista com descrédito, e qualquer afirmação que faça será apenas vista no quadro de descredibilidade que lhe tinha sido previamente preparado por Pessoa A.

Quem usa este tipo de falácia espera que a informação prejudicial contamine os ouvintes, de modo que, quanto mais a pessoa-alvo afirme, mais se agrava. Como sabemos, a mera apresentação de informações negativas sobre alguém (mesmo que sejam verídicas) não têm poder para tornar uma declaração falsa, nem um testemunho inválido. Qualquer declaração ou testemunho tem o seu valor objectivo, que não depende da pessoa que pronuncia.