17/01/2018

Informação


Atendendo a um desafio lançado em caixa de comentários, faço saber que o VERITATIS pelos anos de 2011 e 2012 teve a colaboração de um amigo, desde então é apenas e só operado por uma única pessoa: eu próprio, o Reaccionário. Este é o único blogue que possuo.

15/01/2018

A falsidade da soberania do povo


Na sua luta contra a Monarquia que era chamada de tirânica, a Democracia disfarçada em Monarquia Constitucional ou Liberal, transferiu para o povo a soberania do Rei. Assim se abatiam os tronos e se davam aos descontentes motivos de exaltação, estabelecendo entre os reis e os povos, uma oposição que na Monarquia não pode existir.
De elemento obediente, o povo tornou-se autoritário e os reis foram declarados empregados públicos ou mandatários da Nação. De todas as mentiras democráticas, nenhuma mais irrisória do que a da soberania do povo. Da soberania advém a faculdade de declarar o interesse nacional e o poder de o defender; mas o povo nunca atinge o grau de consciência e a unidade de pensar que o exercício da soberania exige. Os únicos soberanos são os chefes políticos, manobrando à sombra de maiorias inconscientes e irresponsáveis. Uma consulta ao sufrágio do povo pode exprimir o seu agrado a estes ou àqueles homens, a uma ou a outra medida, mas nunca o que mais lhe convém, porque não tem capacidade para conhecer do interesse nacional. Só o Rei, com o conselho dos Estados, pode decidir no sentido da maior utilidade colectiva [bem-comum].

Adaptado de «Cartilha Monárquica», 1916.

14/01/2018

Coincidências...


Vale a pena lembrar que em 2008, há precisamente 10 anos, António Costa e Rui Rio participaram no Clube Bilderberg. Na altura, ambos eram autarcas de Lisboa e Porto, respectivamente. Hoje, um é primeiro-ministro, e o outro é líder do maior partido da oposição...

O Clube Bilderberg foi fundado por Józef Hieronim Retinger, judeu sionista e maçon nascido em Cracóvia. Retinger foi também fundador do Movimento Europeu, que está na génese da actual União Europeia.

10/01/2018

O Marxismo e a Ciência


A interpretação marxista é não só estranha à ciência, como também incompatível com ela, como se tem verificado sempre que os materialistas dialécticos, saindo do puro verbalismo teórico, se lançam a iluminar as vias da ciência experimental com a ajuda das suas concepções. Neste caso o desastre foi total. O próprio Engels foi levado a rejeitar, em nome da dialéctica marxista, uma das maiores descobertas do seu tempo: a Segunda Lei da Termodinâmica... E foi em virtude do mesmo princípio... que Lisenko acusava os geneticistas russos de sustentarem uma doutrina radicalmente incompatível com o materialismo dialéctico e, por consequência, necessariamente falsa. Apesar dos desmentidos dos geneticistas russos, Lisenko tinha razão: a teoria do gene como determinante hereditário invariante através de gerações, e mesmo hibridações, é com efeito absolutamente inconciliável com os princípios dialécticos. É por definição uma teoria idealista, dado que se apoia num postulado de invariância.

Jacques Monod, prémio Nobel da Fisiologia (Medicina) em 1965.

01/01/2018

A perda do sentido sobrenatural


Relato na biografia do meu marido, "The Soul of a Lion", que poucos anos após a sua conversão ao Catolicismo, nos Anos 20, ele começou a ensinar na Universidade de Munique.
Munique era uma cidade católica. A maioria dos católicos da época ia à Missa, mas ele sempre dizia que foi ali que começou a preocupar-se com a perda do sentido do sobrenatural entre os católicos. Um incidente, em especial, ofereceu-lhe a prova suficiente, e isso entristecia-o imensamente.
Quando passava por uma porta, o meu marido deixava sempre entrar primeiro os seus alunos, que eram sacerdotes. Um dia, um professor, colega dele, expressou a sua admiração e desagrado: Por que deixa os seus alunos entrar antes de si? Porque são sacerdotes, respondeu o meu marido. Mas eles não possuem Doutoramento. O meu marido ficou arrasado. Valorizar um Doutoramento é uma reacção natural; mas estar ciente da sublimidade do sacerdócio é uma reacção sobrenatural. A atitude daquele professor provava que a sua reacção para o sobrenatural havia erodido.
Isso foi muito antes do Vaticano II. Mas até ao Concílio, a beleza e a sacralidade da Liturgia Tridentina mascarava esse fenómeno.

26/12/2017

O Natal já acabou?


Não... o Natal ainda agora começou!
Infelizmente, nos nossos dias, poucos são os que ainda conhecem a verdadeira essência do Natal. E também por isso acham que o Natal acaba no dia em que ele começa...
O Tempo do Natal vai de 25 de Dezembro a 13 de Janeiro. Eis as suas principais Festas:

25 de Dezembro – Nascimento do Menino Jesus.
28 de Dezembro – Massacre dos Santos Inocentes.
Domingo entre o Natal e a Oitava – Apresentação do Menino Jesus no Templo.
1 de Janeiro – Oitava de Natal.
Domingo entre a Oitava e a Epifania – Festa do Santíssimo Nome de Jesus.
6 de Janeiro – Epifania ou Dia de Reis.
Domingo depois da Epifania – Festa da Sagrada Família.
13 de Janeiro – Baptismo de Jesus Cristo.

23/12/2017

O erro do Historicismo


Não foram os Papas que cometeram um erro histórico ou que estavam prisioneiros de circunstâncias históricas, mas são estes teólogos que estão imbuídos do preconceito historicista, apesar do que possam dizer. Basta-nos ler as referências históricas que trazem Roger Aubert e John Courtney Murray sobre a liberdade religiosa, para comprovar que eles revêem sistematicamente os ensinamentos do magistério dos Papas do século XIX, segundo um princípio que assim se pode expressar: "Todo o enunciado doutrinal é estritamente relativo ao seu contexto histórico, de tal modo que, mudado o contexto, a doutrina pode mudar".

Não será necessário dizer o quanto este relativismo e este evolucionismo doutrinal é contrário à estabilidade da Rocha de Pedro no meio das flutuações humanas, e o quão contrário é à Verdade imutável que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Estes teólogos, de facto, não são teólogos, nem bons historiadores, pois não têm qualquer noção da Verdade ou de uma doutrina permanente da Igreja, principalmente em matéria social e política; extraviam-se na sua erudição e são prisioneiros dos seus próprios sistemas de interpretação; são pensadores cheios de ideias, mas não são bons pensadores. Razão teve Pio XII ao condenar a sua teologia cambiante, sob o nome de Historicismo:
A isto se soma um falso historicismo que, aferrando-se unicamente aos acontecimentos da vida humana, subverte os fundamentos de toda a Verdade e de toda a Lei Absoluta, tanto no que se refere à filosofia como no que se refere aos dogmas cristãos. (Encíclica «Humani Generis»)

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

15/12/2017

Rei de Jerusalém


Acaba de ser publicado no amigo blogue FIDELISSIMUS o brasão que a Cristandade reconhece como sendo do católico Rei de Jerusalém. É muito apropriado para o momento, na esperança de católicas pessoas enganadas abdicarem do erro judaizante e sionista, lugares por onde já infelizmente andam lançados.

13/12/2017

700 anos da Marinha Portuguesa


Mais um centenário importante para Portugal:

A 1 de Fevereiro de 1317, a Real Armada Portuguesa (Marinha Portuguesa) foi formalmente constituída por carta régia de el-Rei Dom Dinis. Esse documento, conhecido como "Contrato de Vassalagem de Manuel Pessanha", estabelece pela primeira vez a organização permanente da Armada, e nomeia Manuel Pessanha como Almirante-Mor do Reino de Portugal.
A Marinha Portuguesa é o ramo das Forças Armadas mais antigo do mundo, conforme bula papal.

12/12/2017

Da primeira encíclica de São Pio X


Em Outubro de 1903, o Papa São Pio X publicava a sua primeira encíclica, e nela falava dos males anunciados para o fim dos tempos. Mas hoje as coisas estão muito piores...

Além disto, e para passar em silêncio muitas outras razões, Nós experimentávamos uma espécie de terror em considerar as condições funestas da humanidade na hora presente. Pode-se ignorar a doença profunda e tão grave que, neste momento muito mais do que no passado, trabalha a sociedade humana, e que, agravando-se dia a dia e corroendo-a até à medula, arrasta-a à sua ruína? Essa doença, Veneráveis Irmãos, vós a conheceis, e é, para com Deus, o abandono e a apostasia; e, sem dúvida, nada há que leve mais seguramente à ruína, consoante essa palavra do profeta: Eis que os que se afastam de Vós perecerão (Sl. 72, 27).
(...)
Em nossos dias é sobejamente verdadeiro que as nações fremiram e os povos meditaram projectos insensatos (Sl. 2, 1) contra o Criador; e quase comum se tornou este grito dos Seus inimigos: Retirai-Vos de nós! (Job 21, 14). Daí, na maioria, uma rejeição completa de todo o respeito a Deus. Daí hábitos de vida, tanto privada quanto pública, que nenhuma conta fazem da soberania de Deus. Bem mais, não há esforço nem artifício que não se ponha em acção para abolir inteiramente a d'Ele, e até a Sua noção.
Quem pesa estas coisas tem direito de temer que uma tal perversão dos espíritos seja o começo dos males anunciados para o fim dos tempos, e como que a sua tomada de contacto com a terra, e que verdadeiramente o filho da perdição de que fala Apóstolo (2 Tess. 2, 3) já tenha feito o seu advento entre nós, tamanha é a audácia e tamanha a sanha com que por toda a parte se lança o ataque à Religião, com que se investe contra os dogmas da Fé, com que se tende obstinadamente a aniquilar toda a relação do homem com a Divindade! Em compensação, e é este, no dizer do mesmo Apóstolo, o carácter próprio do Anti-Cristo, com uma temeridade sem nome o homem usurpou o lugar do Criador, elevando-se acima de tudo o que traz o nome de Deus. E isso a tal ponto que, impotente para extinguir completamente em si a noção de Deus, ele sacode entretanto o jugo da Sua majestade, e dedica a si mesmo o mundo visível, à guisa de templo onde pretende receber a adoração dos seus semelhantes. Senta-se no templo de Deus, onde se mostra como se fosse o próprio Deus (2 Tess. 2, 2).
Qual venha a ser o desfecho desse combate travado contra Deus por uns fracos mortais, nenhum espírito sensato pode pô-lo em dúvida. Certamente, ao homem que quer abusar da sua liberdade lícito é violar os direitos e a autoridade suprema do Criador; mas ao Criador fica sempre a vitória. E ainda não é dizer o bastante: a ruína paira mais de perto sobre o homem justamente quando mais audacioso ele se ergue na esperança do triunfo. É o que o próprio Deus nos adverte nas Sagradas Escrituras. Dizem elas que Ele fecha os olhos sobre os pecados dos homens (Sab. 11, 24), como que esquecido do Seu poder e da Sua majestade; mas em breve, após essa aparência de recuo, acordando como um homem cuja força a embriaguez aumentou (Sl. 77, 65), Ele quebra a cabeça dos seus inimigos (Sl. 67, 22), a fim de que todos saibam que o Rei de toda a terra é Deus (Sl. 46, 8), e a fim de que os povos compreendam que não passam de homens (Sl. 9, 20).
Papa São Pio X in «E Supremi Apostolatus», 1903.

08/12/2017

8 de Dezembro: Nossa Senhora da Conceição


Oração:
Virgem Santíssima, que tanto agradastes ao Senhor e fostes Sua Mãe Imaculada, no corpo, na alma, na fé e no amor. Por piedade, volvei benigna os vossos olhos para nós, que imploramos o vosso poderoso amparo.
A serpente maligna, contra quem foi lançada a primeira maldição, teima em combater e tentar os filhos de Eva.
Eia, pois, santa Mãe, nossa Rainha e Advogada, que desde o primeiro instante da vossa Conceição esmagastes a cabeça do inimigo, acolhei as súplicas que, unidos a vós num só coração vos pedimos, apresenteis ante o trono do Altíssimo, para que nunca nos deixeis cair nas emboscadas que se nos preparam, e cheguemos todos ao porto da salvação; e, no meio de tantos perigos, a Igreja e as nações cantem de novo o hino do resgate, da vitória e da paz. Ámen.

Papa São Pio X

01/12/2017

1º de Dezembro: Dia da Restauração


A guerra de Portugal com Castela é tão antiga, que começou juntamente com o mesmo Reino e seus primeiros Príncipes, e há mais de 500 anos que dura. Pelo que nem esta guerra se deve de ter por coisa nova, nem se deve de fazer da nossa parte por modo novo; mas termos por certo, que seguindo-se os meios por onde se conservaram os nossos Reis, teremos na ocasião presente a mesma segurança e bons sucessos contra Castela, que por tantos séculos tivemos.

Pe. Manuel Severim de Faria in «Notícias de Portugal», 1655.

§

As palavras citadas são de um chantre e cónego da Sé de Évora, contemporâneo da Guerra da Restauração, na qual Portugal se defendeu da usurpação espanhola. E são também palavras que refutam a absurda e revolucionária tese da Aliança Peninsular... Em relação a Espanha, os nossos antepassados sempre mantiveram uma atitude de um prudencial afastamento, daí o famoso adágio popular: De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento. Mas foi preciso que viessem uns certos intelectuais no século XIX e XX, para nos ensinar o contrário daquilo que sempre fizemos... E se é por razão de ignorância que hoje também alguns caem nesse mesmo erro, pois que façam como indica o Padre Severim de Faria: "...seguindo-se os meios por onde se conservaram os nossos Reis, teremos na ocasião presente a mesma segurança e bons sucessos... que por tantos séculos tivemos". Que nos reportemos, pois, à nossa Tradição Portuguesa e às suas fontes originárias, e não a modernos autores com as suas subjectivas interpretações, por mais bem-intencionados que alguns possam ter sido.

29/11/2017

Paradoxos dos "Direitos do Homem"


Afastando estes tópicos, perguntemos porque é que o homem possui direitos inalienáveis enquanto homem, unicamente por ser homem?

A resposta assemelha-se simples. Exactamente porque o homem é um sujeito com consciência de si e, sobretudo, com uma natureza racional.

Simplesmente, uma dificuldade surge aqui. Se por natureza se entende essência, como o faz S. Tomás de Aquino [cf. Suma Teológica], torna-se patente que a essência do homem não é a racionalidade. Porventura será o homem só razão? Se assim fosse, o homem não poderia enganar-se, nem praticar o mal. Tudo quanto o homem fizesse seria verdadeiro e, então, seria verdade que o homem não tem dignidade nenhuma e meritório tratá-lo como um desvalor sem direitos.

Mas, observar-se-á, o homem não será só razão, por certo. No entanto, para além de Deus e dos anjos, é o único ente dotado de razão. E isso não bastará para lhe dar dignidade e direitos intrínsecos? Obviamente não, porque a razão é apenas um atributo do homem entre outros, existindo, ao lado dela, a capacidade de errar, de se abandonar ao que é vil e extremamente mesquinho, de agir irracionalmente, em suma. Onde estarão, nessa altura, a sua dignidade e direitos intrínsecos?

Sublinhar-se-á, a seguir, que é ele o único ente (além dos anjos e Deus) que pode praticar o Bem, coisa que não está na alçada dos gatinhos ou das pedras. Mas em contrapartida, também pode praticar infâmias, o que não acontece com os gatinhos ou as pedras.

Sem dúvida o homem, ontologicamente, é diferente dos animais e dos minerais; todavia, tal situação não equivale a ter dignidade e direitos enquanto homem, porque dignidade e direitos são categorias éticas, que não se confundem tout court com as categorias ontológicas.

Anotar-se-á que os homens, e apenas os homens, podem conseguir a Salvação e atingir a beatitude? Bem! Já que estamos, agora, numa perspectiva teológica, replicar-se-á que os homens também podem ir para o Inferno, que é o contrário da beatitude.

De resto, se há homens perfeita e cabalmente indignos, como nos dizem e repetem, em especial a propósito da guerra de 1939-1945, de que forma sustentar que o homem tem uma dignidade e direitos intrínsecos só por ser homem?

E examinemos outro problema. Qual o limite dos direitos inalienáveis de cada homem, uma vez que, tratando-se de elementos de uma multiplicidade, – cada homem – não se concebe como ilimitado?

Se utilizarmos um critério objectivo, superior ao próprio homem, para fixação daquele limite, estamos perante uma ambiguidade patente. Os direitos do homem serão delimitados por algo de extrínseco ao homem que, porventura, praticamente os reduzirá a nada.

Os direitos do homem, portanto, só poderão ser fixados pelos próprios homens. Mas isso não levantará conflitos entre estes? Talvez se responda que não, porque os homens, sendo finitos por definição, têm limites que não ultrapassam.

Simplesmente, até onde vão esses limites? A sua simples existência não impede eventuais conflitos. Um ente finito pode, indiscutivelmente, visar a eliminação de outro ente finito sem perder a sua finitude.

É preciso encontrar um critério de delimitação recíproca dos direitos do homem que não seja função de nada de exterior ao próprio homem. O problema parece difícil de resolver, mas em realidade não o é.

Basta considerar que cada um estabelecerá os direitos que lhe aprouver, desde que não viole os iguais direitos dos outros.

A fórmula, aliás, é antiga. Encontra-se no artigo IV da Déclaration des droits de l'homme et du citoyen, de 1789. "L'exercice des droits naturels de chaque homme n'a de bornes que celles qui assurent aux autres membres de la société la jouissance de ces mêmes droits".

À primeira vista, isto parece o mais claro possível. Os direitos do homem põem-se a si mesmos, juntamente com os seus próprios limites. Cada homem tem todos os direitos concebíveis, só não deve ir além do ponto em que se situam os direitos dos restantes.

Estamos perante uma concepção que representa a mais sólida razoabilidade e que, sem recorrer a nada de extrínseco, consegue pôr as barreiras necessárias aos direitos de cada um.

Contudo de Cila passamos a Caríbdis.

Com efeito, se o direito de A só é limitado pelo direito de B e o direito de B só é limitado pelo direito de A, para conhecermos até onde vai o direito de A – isto é, para conhecermos o direito de A – temos de conhecer, previamente, até onde vai o direito de B – isto é, temos de conhecer o direito de B. Mas, em contrapartida, para conhecermos o direito de B, temos de conhecer já o direito de A, que vimos depender do conhecimento do direito de B e assim sucessivamente.

Estamos num círculo vicioso ou dialelo nítido.

A fim de se saber até onde pode ir a vontade de A, é preciso saber até onde pode ir a vontade de B, e para saber até onde pode ir a vontade de B, é preciso saber até onde pode ir a vontade de A.

Anotar-se-á que isso é plenamente descabido. Basta esclarecer, inicialmente, o direito de A e de B, cada um de per si.

Todavia, estabelecer o direito de A é defini-lo, e definir, consoante a palavra indica, é marcar os fins, os contornos, logo, os limites. Não é possível uma definição anterior à delimitação, acontecendo que, neste caso, a única regra que se apresenta para a delimitação é uma devolução recíproca.

Não tem, pois, consistência a observação que nos fizeram e o círculo vicioso mantém-se.


António José de Brito in «Alguns paradoxos das doutrinas sobre os direitos dos homens».

25/11/2017

A infância de Salazar


Presentemente conhecem-se muito poucos pormenores sobre a infância de Oliveira Salazar. Mas não é difícil imaginá-lo crescendo naquela casa de gente trabalhadora e educada, tão perto da terra e do céu, passando o tempo a brincar com moderação, pois o futuro ditador sempre foi uma pessoa moderada – nunca se separando dos verdes campos, nunca contrariando os seus pais. Todas as informações biográficas disponíveis falam de Oliveira Salazar como uma criança exemplar, dotada de virtudes precoces: meiguice, moderação, filho exemplar, amigo exemplar. O pequeno Oliveira, segundo alguns biógrafos, esconde nos bolsos o pão a que tem direito, para o distribuir pelos pobres da aldeia. Nunca briga com outras crianças. Não falta a nenhuma missa na Igreja de Nossa Senhora.
É, sem dúvida, uma criança precoce, mas também uma criança feliz. Na casa dos pais tem uma vida de amor sereno e concórdia, de que nunca se esquecerá. Dom António e Dona Maria são pessoas tementes a Deus, trabalhando muito, mas felizes por estarem juntos e poderem criar os filhos, apesar de alguns sacrifícios. A grata recordação da vida familiar estará sempre presente no pensamento e actividade política de Salazar, e domina, hoje, a concepção do Estado Novo português.
Se quiséssemos ir ainda mais longe com a análise da formação moral e política de Salazar, poderíamos descobrir outros elementos fundamentais, que só uma infância como a sua podia aperfeiçoar e promover. Por exemplo, a grande importância que Salazar não se cansa de dar, ainda antes de ser professor de Economia Política e Finanças, à agricultura e aos trabalhos agrários. Passou a sua infância em Santa Comba, junto à terra, conhecendo a gloriosa servidão do lavrador, tão rica em significados morais e religiosos, que dificilmente poderia trocar pela vida pulverizada, artificial e acósmica do trabalhador da cidade. De igual modo, a importância que Salazar dá à religião na vida do homem e da sociedade tem raízes na sua infância piedosa, inabalada por crises. Os seus pais eram pessoas com uma religiosidade moderada – o tipo de piedade católica popular. Oliveira Salazar nunca perdeu a sua fé, na infância ou no princípio da adolescência, para a reencontrar mais tarde, após longos devaneios e lutas. A sua religiosidade é totalmente desprovida de dramatismo. É algo que aprendera na infância e que compreendeu com a maturidade. "Aprendera", aqui, é utilizado sem nenhum sentido pejorativo; aprendeu a religião, amando-a, tal como aprendem as crianças todas as coisas fundamentais: o andar, o falar, os jogos, as canções.
Como desde muito cedo demonstrou ser uma criança-prodígio, moderada em tudo, os pensaram dar-lhe uma formação sacerdotal. Gostava das actividades da igreja, integrava o coro infantil e dava as respostas ao Senhor Padre António, em latim, talvez com alguns erros, mas de um modo que encantava a sua mente, maravilhada com todos os mistérios eclesiais. Aprendeu a ler e a escrever com um certo Dom José Duarte, e depois na escola primária que fora construída no Vimeiro. Fez amizade com algumas crianças, entre os 10 e os 14 anos, que estudavam com "a menina Isabel", antiga governanta da família do Barão de Santa Comba. Alguns biógrafos falam de uma paixão de Oliveira Salazar para com a filha de um fazendeiro abastado. Era a rapariga mais bonita do Vimieiro e todas as crianças podiam brincar com ela, excepto o pequeno Oliveira; os pais não lhe permitiam ficar muito amigo da filha de um homem tão rico. Essa tenra paixão teria sido, segundo alguns biógrafos, a verdadeira razão para Oliveira Salazar abraçar a vida eclesiástica. A família, e sobretudo a Dona Maria, encorajou-o nessa decisão. Nada seria tão lisonjeiro para os pais do que vê-lo, um dia, sacerdote em Santa Comba. Uma vida tranquila, ao lado dos seus familiares, livre de quaisquer preocupações; esse ideal correspondia perfeitamente à piedade calma do pequeno Oliveira Salazar.

Mircea Eliade in «Salazar e a Revolução em Portugal».